Quem acompanha este meu jardim faz um algum tempo, sabe que os livros do Thomas Hardy ocupam um espaço especial em meu coração, e nas estantes espalhadas pela minha casa. Apesar de os livros deste autor terem um toque nada sutil de drama, mortes repentinas e acontecimentos trágicos, eles ao mesmo tempo me trazem certo conforto, e são histórias bem construídas que perduram por anos.
Ainda não me deparei com um final minimamente feliz se quer nos livros do Hardy, ou melhor, não havia me deparado até ler o livro dessa minha singela resenha despretensiosa, escrita em um momento de lapso de reflexão que fiquei, ao terminar a leitura de O Prefeito de Casterbridge. Mas já digo que o final é pouco feliz ou nem isso, dependendo do ponto de vista que você tem sobre a felicidade e a vida ao todo.

Não irei me prolongar contando o decorrer da história como em uma típica resenha, pois eu gostaria muito mais de me aprofundar no que aprendi com essa história, ou no que ela me deixou pensando.
Bem, temos aqui a história do Michael Henchard, um homem pobre e trabalhador rural, que no começo da narrativa está andando a esmo com a esposa Susan, e a bebê deles, Elizabeth-Jane (eu inclusive amei esse nome), quando então eles param em uma feira, e entram em uma tenda onde estava sendo servido mingau, aqui a senhora que preparava a grande bacia de mingau adicionaria rum ao prato se lhe fosse pedido, e foi o que o protagonista fez.
E após algumas colheradas do mingau batizado, ele está bêbado o suficiente para começar a desprezar a sua vida e sua pobre esposa Susan, e neste momento ele passa um vexame por toda a embriaguez, começa uma brincadeira em que diz que venderia sua esposa e filha dependendo do lance dado, e resumidamente, a brincadeira vai longe demais e um marinheiro de fato as comprou pela pechincha de cinco guinéus. Esse momento impulsivo, e a brincadeira de mal gosto, deixaram consequências gigantescas para o resto da vida do Henchard.
Anos após esse infeliz acontecimento, arrependido, sóbrio e tentando se redimir com pouca coisa ou outra, pois apesar de tudo, o personagem ainda continua tendo um orgulho inabalável e um tendência auto destrutiva, Michael construiu uma boa reputação para si em Casterbridge, se tornando pouco tempo depois o prefeito da pequena cidade.
"Ele parecia sentir exatamente o que ela sentia sobre a vida e suas circunstâncias... que elas eram trágicas e não cômicas; que, embora alguém pudesse ficar alegre de vez em quando, os momentos de alegria eram interlúdios e não faziam parte do drama real."
Enfim, a partir disso, a história se desenrola com vários pontos de vista, e camadas recheadas de segredos a cada página virada (essa parte eu não esperava!), muitas coisas tomaram um rumo que eu não esperava, e outras eu já poderia imaginar por já ser acostumada com as tragédias do Hardy. Eu desgostava do Michael, e ao mesmo tempo, queria que ele tivesse sua redenção, mas no geral, ele é um pouco detestável, e seu caráter duvidosíssimo.
"Ela não gostava de gentilezas em uma situação em que havia entrado apenas por causa da reputação de sua filha. Na realidade, ela gostava tão pouco delas que havia espaço para se perguntar por que havia tolerado a mentira e não tinha corajosamente deixado a jovem saber sua história. Mas a carne é fraca e a verdadeira explicação veio no devido tempo."
O livro traz em si várias lições e questionamentos relevantes sobre a felicidade, como por exemplo, o fato de você ter sofrido por grande parte de sua vida, faz você duvidar que os momentos de felicidade possam durar por muito tempo.
"E, ao ser obrigada a classificar-se entre os afortunados, não deixou de se maravilhar com a persistência do imprevisto (...)"
Esse trecho está no final, e ele menciona um sentimento da Elizabeth-Jane, que passou por desventuras grande parte de sua vida - que podemos acompanhar no decorrer da história -, até o momento, e que ela faz parte de um grupo de pessoas que poderiam ser classificadas como "privilegiadas", mas ela não sente-se dessa maneira. Ela desconfia constantemente de sua felicidade, não se sente segura com sua vida, mesmo após os rumos de sua jovem vida finalmente entrarem em um caminho mais feliz, podemos assim dizer.
Sabemos que a felicidade não é linear, mas quantas vezes sentimos, em momentos de alegria, ela escorrendo entre nossos dedos, muito antes de acontecer, se aconteceu?
"(...) quando aquele a quem tal tranquilidade ininterrupta havida sido concedida na fase adulta era aquela cuja juventude parecida ensinar que a felicidade era apenas o episódio ocasional em um drama geral de dor."
Eu discordo dessa frase dita de forma tão fria e direta, e você pode concordar com ela, se seu modo de ver a vida seja mais baseada em um determinismo, ou no niilismo, talvez.
Mas eu sou um pouco Pollyanna, carreguei sempre comigo um otimismo meio descontrolado, que entra em cena em momentos de desventuras que ocorrem em minha vida, antes mesmo de eu dar tempo para pensar o que fazer a seguir. Meu otimismo exagerado me fez sempre torcer por vilões desde pequena, torcer para que o melhor também lhes ocorresse, e não foi diferente com o prefeito deste maravilhoso livro, que obviamente, deixarei aqui de recomendação.



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